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Ciência e Fé Módulo I - Introdução Outubro de 2011 a Fevereiro de 2012
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Ciência e Fé Estrutura do Curso I - Introdução II - Filosofia grega e cosmologia grega III - Filosofia medieval e ciência medieval IV - Inquisição e Ciência V e VI - O caso Galileu VII - A revolução científica VIII - Darwin e a Igreja Católica IX - Os Argumentos Cosmológico e Teleológico X - Filosofia da Mente e Inteligência Artificial XI - Milagres e Ciência XII - Desafios ao diálogo entre Ciência e Fé
Índice 1. Introdução 2. Obscurantista, a Igreja? 3. A dita guerra entre Igreja e Ciência 4. Cientistas e cristãos 5. Conclusão 3
Introdução Fé e Razão, Ludwig Seitz (1844– 1908), Galeria dos Candelabros, Vaticano 4
Introdução A fé cristã é irracional? Toda a doutrina cristã parte do conceito cristão de Deus e da existência desse Deus «(…) Deus, a causa primeira (principium) e o fim de todas as coisas, pode, a partir das coisas criadas, ser conhecido com certeza pelo poder natural da razão humana (…)» - Vaticano I Do ponto de vista ateísta: a crença na existência de Deus é irracional Afirma-se que o conceito de Deus é contraditório: é impossível que Deus exista Mais modestamente, afirma-se que Deus poderia existir, mas não existe Só se pode dizer que é irracional se se mostrar que é impossível que Deus exista Do ponto de vista cristão: a crença na inexistência de Deus é irracional Afirma-se que a razão e a observação levam a que seja impossível que Deus não exista Mais modestamente, Deus poderia não existir, mas existe (esta posição não é cristã) Se é impossível que Deus não exista, então o ateísmo é irracional Atenção: ao dizer que o ateísmo é irracional, não se diz que os ateus são irracionais! 5
Índice 1. Introdução 2. Obscurantista, a Igreja? 3. A dita guerra entre Igreja e Ciência 4. Cientistas e cristãos 5. Conclusão 6
Introdução Richard Dawkins (1941 -) Este cientista julga que a Ciência conduz ao ateísmo… É o mais popular “profeta” moderno do ateísmo! «O Deus do Antigo Testamento é a personagem mais desagradável de toda a ficção. Ciumento e orgulhoso disso. Um mesquinho, injusto e impiedoso fanático do controlo. Um vingativo “limpador étnico” sedento de sangue. Um misógino, homofóbico, racista, infanticida, genocida, filicida, pestilento, megalómano, sado-masoquista, caprichoso e malévolo rufia. » Palestra em Lynchburg, Virginia (E. U. A. ), 2006 Estará Dawkins a falar como cientista? Ou estará a usar a sua carreira científica como aval para o seu ateísmo? 7
Introdução O Deus do Antigo Testamento… «Quando Israel era ainda menino, Eu amei-o, e chamei do Egipto o meu filho. Mas, quanto mais os chamei, mais eles se afastaram; ofereceram sacrifícios aos ídolos de Baal e queimaram oferendas a estátuas. Entretanto, Eu ensinava Efraim a andar, trazia-o nos meus braços, mas não reconheceram que era Eu quem cuidava deles. Segurava-os com laços humanos, com laços de amor, fui para eles como os que levantam uma criancinha contra o seu rosto; inclinei-me para ele para lhe dar de comer. Ele [Israel] voltará para o Egipto, e a Assíria será o seu rei, porque recusaram converter-se. A espada devastará as suas cidades, destruirá as suas defesas e os devorará, por causa dos seus planos. O meu povo é inclinado a afastar-se de mim; quando se convida a subir ao que está no alto, ninguém procura elevar-se. Como poderia abandonar-te, ó Efraim? Entregar-te, ó Israel? Como poderia Eu abandonar-te, como a Adma, ou tratar-te como Seboim? O meu coração dá voltas dentro de mim, comovem-se as minhas entranhas. Não desafogarei o furor da minha cólera, não voltarei a destruir Efraim; porque sou Deus e não um homem, sou o Santo no meio de ti, e não me deixo levar pela ira. » - Oseias, 11, 1 -9 Dawkins não está a falar como cientista, senão verificaria melhor os factos… 8
Obstáculos… Incompreensão do conceito de Deus: Dúvidas sobre a sinceridade dos cristãos: “Enquanto eu não vir Deus com os meus olhos não acredito”; “O clero inventou tudo para ter poder”; “Mostrem-me Deus” ; etc. “Nem o Papa acredita em Deus”; etc. A Fé cristã seria incompatível com a Razão. . . O mito da incompatibilidade entre Fé Cristã e Ciência (sécs. XVIII e XIX) Lendas anti-cristãs: “A Ressurreição foi falsificada”; Fé = Superstição: “Jesus foi casado com Maria Madalena”; Erro comum, confundir “supraracional” com “irracional” “Jesus não queria fundar uma Igreja”; A Fé é “supra-racional”, ou seja, actua “acima” da razão “A Igreja é inimiga da sexualidade”; Para ser “irracional”, a Fé teria que estar contra a razão Cientista Ateu “O Papa Pio XII apoiou o nazismo”; “Constantino «montou» o Novo Testamento”; “A Inquisição matou milhões de pessoas”; etc. 9
Índice 1. A Questão de Hoje 2. Introdução e Obstáculos 3. Obscurantista, a Igreja? 4. A dita guerra entre Igreja e Ciência 5. Cientistas e católicos 6. Conclusão 10
Obscurantista, a Igreja? Igreja Católica: a grande inimiga e rival da Ciência e da Razão? A religião cristã teria mantido a Europa em atraso civilizacional: “a Idade das Trevas” O caso excepcional de Galileu é apresentado como a “regra” no conflito com a Ciência Julgamento de Galileu – Cristiano Banti (1857) 11
Obscurantista, a Igreja? O caso Galileu: uma história mal contada? Como se explica que… … tenham sido dois Cardeais, Schömberg e Tiedemann Giese, a pedir a Copérnico para publicar a sua obra De revolutionibus orbium coelestium (Nuremberga, 1543), em defesa do modelo heliocêntrico? Como se explica que… … a obra de Copérnico tenha sido dedicada pelo autor ao Papa Paulo III, que a autorizou? Como se explica que… … apenas em Fevereiro de 1616, ou seja, 73 anos depois da primeira edição, um grupo de teólogos do Santo Ofício tenha declarado que o heliocentrismo era herético? Como se explica que… … essa declaração não tenha sido assinada pelo Papa e formalizada para toda a Igreja, levando apenas a uma proibição do livro de Copérnico? Como se explica que… … que a obra que causou a ruína de Galileu, o Diálogo (Florença, 1632), tenha sido impressa com permissão do Inquisidor de Florença? Como se explica que… … o Papa Urbano VIII, outrora grande amigo de Galileu, o tenha condenado em 1633, por causa de uma obra aprovada pelas autoridades eclesiásticas? Como se explica que… … em Março de 1638, em prisão domiciliária em Florença, Galileu peça ao Santo Ofício permissão para ir à missa em dias festivos? 12
Obscurantista, a Igreja? O caso Galileu: uma história mal contada? “Tenho duas fontes de perpétuo conforto: primeiro, que nos meus escritos não se pode encontrar a mais ténue sombra de irreverência em relação à Santa Igreja; e segundo, o testemunho da minha própria consciência, que apenas eu e Deus no Céu conhecemos. E Ele sabe que nesta causa pela qual eu sofro, apesar de que muitos podem ter falado dela com mais erudição, ninguém, nem mesmo os antigos Padres, falou com mais piedade ou como maior zelo pela Igreja do que eu” Carta de Galileu a Nicolò Fabri di Peiresc, de 21 de Fevereiro de 1635. 13
Obscurantista, a Igreja? O caso Galileu: uma história mal contada? Galileu, Sidereus Nuncius, Veneza, 1610 Manuel Dias, Tianwenlüe, Pequim, 1614 Porque razão estava Giovanni Lembo, amigo de Porque razão o Padre Jesuíta Manuel Dias Galileu, em Lisboa, em 1614, no colégio jesuíta divulgou na China, em 1614, as descobertas de Santo Antão, a ensinar na Aula da Esfera a astronómicas de Galileu Galilei? construção de telescópios galileanos? 14
Obscurantista, a Igreja? Ou exactamente o oposto? «The Roman Catholic Church gave more financial and social support to the study of astronomy for over six centuries, from the recovery of ancient learning during the late Middle Ages into the Enlightenment, than any other, and, probably, all other, institutions (p. 3). » «During the sixteenth and seventeenth centuries the Catholic Church supported a great many cultivators of science. A systematic study of the niches they occupied, the infrastructure they moved through, and the roles they fulfilled does not exist. The courts and households of the J. L. Heilbron, The Sun in the Church. Cathedrals as Solar Observatories (Harvard University Press, 1999) big ecclesiastical patrons, the popes and cardinals, afforded many openings for the learned. The great orders, especially the Jesuits, supported some of their brethren as writers, mathematicians, architects and engineers” (pp. 21 -22). » 15
Obscurantista, a Igreja? Ou exactamente o oposto? «The single most important contributor to the support of the study of physics in the seventeenth century was the Catholic Church and, within it, the Society of Jesus» (p. 2) «O mais importante contribuidor para o apoio do estudo da física no séc. XVII foi a Igreja Católica e, nela, a Companhia de Jesus» (p. 2). J. L. Heilbron, Electricity in the 17 th and 18 th Centuries 16
Índice 1. Introdução 2. Obscurantista, a Igreja? 3. A dita guerra entre Igreja e Ciência 4. Cientistas e católicos 5. Conclusão 17
A dita guerra entre Igreja e Ciência Ramalho Ortigão (1836 -1915) «A Teologia representada em Roma pelos Santos Padres, seus legítimos intérpretes, não só não se encontrou nunca, em tempo algum, de acordo com a ciência e com a razão do homem, mas esteve sempre em conflito, em contradição e em hostilidade com a razão e com a ciência. » Ramalho Ortigão, “As Farpas” – carta a Monsenhor Pinto de Campos
A dita guerra entre Igreja e Ciência Os pioneiros da tese do conflito John William Draper (1811 -1882) “History of the Conflict between Religion and Science” (1875) Cientista, médico e professor universitário (NYU) Presidente da American Chemical Society Fundador da NY University School of Medicine Obra escrita num tom anticatólico Andrew Dickinson White (1832 -1918) “A History of the Warfare of Science with Theology in Christendom“ (1896, 2 vols. ) Fundador (com Ezra Cornell) e primeiro Presidente da Universidade Cornell (EUA) White pretendia combater a “teologia” e não a “religião”: a Ciência vista como purificadora da religião organizada 19
A dita guerra entre Igreja e Ciência A história quase completa desta “guerra”… 1600: Giordano Bruno queimado em Roma pela Inquisição 1720: John Toland lança o mito moderno de Hipátia 2009: O mito de Hipátia chega às salas de cinema … mas por magia: ele não era cientista! Filósofa alexandrina do século V, assassinada em 415 “Ágora” do realizador Alejandro Amenábar 1600 1650 1700 1633: Galileu condenado a prisão domiciliária Na sequência da publicação da sua obra Diálogo, por desobedecer a uma ordem que (presumidamente) lhe fora dada em 1616 pelo Cardeal Bellarmino 1750 1800 1850 1788/89: “History of the Decline and Fall of the Roman Empire”, vol. VI 1900 1950 2000 1980: “Cosmos” Carl Sagan ecoa Gibbon: culpa os cristãos pela Edward Gibbon culpa os cristãos pela morte de Hipátia (p. morte de Hipátia e pelo fim da 17) e pela destruição da Biblioteca de Alexandria (que já Biblioteca de Alexandria (p. 365) não existia na altura, p. 420) «Ao antigo saber científico dos pagãos seguiu -se a Idade das Trevas do cristianismo» 20
Cristianismo: o berço da Ciência § Porque razão a Ciência apenas prosperou no Ocidente cristão? Visão judaico-cristã: Cosmos estável e estruturado, obra de um Deus racional e fiel, Cosmos inteligível Tu, porém, regulaste tudo com medida, número e peso. Livro da Sabedoria, c. 11, v. 20 Investigar a Natureza é “ler” a obra racional de Deus Sendo criado à imagem e semelhança de Deus, o Homem é capaz de inteligir a realidade criada por Deus Distinção entre Criador e Criação: a Natureza tem as suas próprias “leis”, definidas por Deus O enorme valor dado à Criação e ao Homem: Deus Fez-Se Homem em Jesus Cristo Fim do Cosmos pagão: eterno e necessário (autossuficiente, auto-existente) Início do Cosmos cristão: criado “ex nihilo” (do nada) e contingente (dependente de algo para existir) O Cosmos cristão podia não existir! Se existe… porque é que existe? O que o fez existir? O trabalho científico pressupõe um Cosmos racional e inteligível! 21
Índice 1. Introdução 2. Obscurantista, a Igreja? 3. A dita guerra entre Igreja e Ciência 4. Cientistas e cristãos 5. Conclusão 22
Cientistas e cristãos Jean Buridan (c. 1295 -1358) Padre secular e professor na Universidade de Paris Nascido em Béthune, na Picardia, de origem humilde Bolseiro no Colégio Lemoine em Paris, Mestre em Artes e Professor na Universidade de Paris Pioneiro, na Europa medieval, de Física não aristotélica Desenvolveu a teoria do ímpeto: os corpos em movimento tendem a mantê-lo Lançou as bases para o trabalho de Newton na dinâmica dos corpos «depois de abandonar o braço do lançador, o projéctil move-se graças a um ímpeto que lhe é dado pelo lançador, e este continuará a mover-se enquanto o ímpeto permanecer mais forte do que a resistência, e seria de infinita duração se não fosse diminuído ou corrompido por uma força contrária que lhe resistisse ou por algo inclinado a um movimento contrário» (QM XII. 9: 73 ra) 23
Cientistas e cristãos Nicole Oresme, Bispo de Lisieux (c. 1320 -1382) Matemático, economista, físico, astrónomo, filósofo, musicólogo, teólogo Forte crítico das “manipulações monetárias” por parte do poder temporal Forte crítico da astrologia, e do seu uso por parte dos governantes Criador de um grande número de termos científicos em francês Demonstrou, séculos antes de Galileu, as leis do movimento uniforme Primeiro método de cálculo para potências irracionais Primeira teoria da propagação de ondas de som e luz por via energética “Tratado do aperfeiçoamento das espécies”: pai da Teoria dos Sistemas, propõe evolução biológica pela adaptação do indivíduo ao ambiente, cinco séculos antes de Lamark e Darwin 24
Cientistas e cristãos Blaise Pascal (1623 -1662) Filósofo, matemático e inventor francês, natural de Clermont-Ferrand Entre 1642 e 1645, Pascal desenvolveu cerca de 50 protótipos de calculadora A “Pascaline” foi apresentada ao público em 1645: Pascal construiu cerca de 20 calculadoras, das quais sobreviveram apenas 9 Hidrostática: determinação da relação entre a altitude e a pressão atmosférica (lei de Pascal) Inventor: prensa hidráulica, seringa, roleta (forma primitiva) O nome de Pascal foi dado a uma unidade do sistema SI (pressão) e a uma linguagem de programação Pensées, a obra-prima de Pascal, não foi terminada: o título original: Apologia da religião cristã 25
Cientistas e cristãos Niels Stensen (1638 -1686) Dinamarquês, natural de Copenhaga Anatomista, investigou o sistema muscular e o sistema nervoso Pioneiro em Geologia e Estratigrafia (fundou-a em 1669) Foi o primeiro a afirmar que os fósseis derivam de organismos vivos Converteu-se do luteranismo ao catolicismo em 1666 Em 1667 dissecou um tubarão Em 1677 foi ordenado Bispo Morreu em 1686 - Em 1987, o Papa João Paulo II proclamou-o Beato 26
Cientistas e católicos Ruđer Bošković (1711 -1787) Sacerdote jesuíta, matemático, físico, astrónomo, filósofo, teólogo, poeta e diplomata, nascido em Dubrovnik (hoje Croácia) Em Setembro de 1725, abandona Dubrovnik e segue para Roma Inicia o noviciado jesuíta em 1731, em Sant’Andrea delle Frate, onde estuda Matemática e Física, revelando-se um aluno brilhante Em 1740 é nomeado professor de Matemática do colégio Em 1758 publica em Veneza a sua obra mais importante, Teoria da filosofia natural derivada da única lei de forças existente na Natureza, que contém as suas importantes teoria atómica (não rígida) e teoria de forças, ambas baseadas na física newtoniana É o fundador do Observatório Astronómico de Brera (Milão), em 1764 Em 1773, Clemente XIV extingue a Companhia de Jesus; nesse ano de incertezas, Bošković aceita a oferta de Luís XV para ir para Paris, como director de óptica militar na Marinha Real Em 1783 está de volta a Itália; passa dois anos em Bassano, e muda-se para Brera em 1786 Nos últimos anos da sua vida dedica-se por inteiro à óptica e à astronomia 27
Cientistas e católicos Maria Gaetana Agnesi (1718 -1799) Matemática, linguista e filósofa italiana, nascida em Milão Aos 5 anos já falava francês Aos 9 anos, fez um discurso em latim sobre o direito das mulheres à educação Aos 13 anos era fluente em, Grego, Hebreu, Castelhano, Alemão, Latim Aos 20 anos, publica os ensaios Propositiones Philosophicae e pede ao pai para entrar num convento Com a recusa do pai, prossegue os estudos de Matemática e aos 30 anos, publica Instituzioni analitiche ad uso della gioventù italiana, um livro que usou como manual para instruir os irmãos Em 1750, Bento XIV nomeia-a lente de Matemática, Filosofia Natural e Física em Bolonha É a primeira mulher nomeada professora numa Universidade (mas não terá exercido o cargo) Após a morte do pai em 1752, dedica-se ao estudo da Teologia e da Patrística e a obras de caridade; em 1771, é nomeada directora do Pio Instituto Trivulzio, onde fica até morrer em 1799 28
Cientistas e cristãos Gregor Mendel (1822 -1884) Ordenado sacerdote, e com estudos em Ciências Naturais Mendel é o “pai” da Genética No mosteiro de Brno (Áustria), faz experiências de cruzamento de espécies usando ervilhas Formula as Leis da Hereditariedade (1866), sem no entanto usar ainda o termo “gene” O seu trabalho apenas foi descoberto pela comunidade científica em 1900 O neo-darwinismo é a síntese moderna da evolução darwiniana por selecção natural com a genética mendeliana 29
Cientistas e cristãos Pierre Duhem (1861 -1916) Físico, matemático, filósofo de Ciência e professor de Física 1872: perde uma irmã e um irmão devido a uma epidemia de difteria 1872 -1882: prossegue os seus estudos no Colégio Stanislas, em Paris 1882: entra na École Normale Supérieure (Paris); foi o melhor aluno de Ciências em todos os anos 1884 -1885: apresenta a Tese de Doutoramento: “Le potentiel thermodynamique et ses applications à la mécanique chimique et à l'étude des phénomènes électriques” O painel de tendências anticlericais, Lippmann, Hermite e Picard, rejeita a Tese de um aluno brilhante, mas católico; para mais, Duhem refutara o Princípio do Trabalho Máximo, a “glória” de Marcelin Berthelot, figura eminente do meio científico, e de quem Lippmann era amigo Berthelot usará a sua influência para lhe fechar as portas a uma carreira docente em Paris; em Outubro de 1887 obtém uma colocação de docente na Faculdade de Ciências de Lille Outubro de 1888: obtém o Doutoramento numa Tese sobre magnetismo por indução; o painel era composto por Bouty, Darboux e Poincaré 1890: casa-se com Adèle Chayet de quem tem a filha Hélène (1891) 30
Cientistas e cristãos Pierre Duhem (1861 -1916) Físico, matemático, filósofo de Ciência e professor de Física 1892: a sua mulher morre ao dar à luz o seu segundo filho, que também morre Outubro de 1893: muda-se de Lille para Rennes; mantém a expectativa de ir para Paris Outubro de 1894: é recolocado em Bordéus, onde permanecerá até ao fim da sua carreira 1903: Durante as pesquisas para a sua obra sobre as origens da estática, descobre a ciência medieval, e a obra científica de autores como Buridan e Oresme (“doctores parisienses”) É o pioneiro na demonstração da continuidade entre ciência medieval e ciência moderna 1906 -1913: Trabalha na sua obra em três volumes, “Études sur Léonard de Vinci”; o terceiro volume recebe o título “Les précurseurs parisiens de Galilée” 1914 -1916: Trabalha na sua obra-prima (pensada para doze volumes), “Le Système du Monde” 1916: Com a sua morte, deixa a obra interrompida no décimo volume (incompleto) 31
Cientistas e cristãos Georges Lemaître (1894 -1966) Padre belga, astrónomo, físico e professor de Física Pioneiro na aplicação da Relatividade Geral à Cosmologia 1927: contesta o modelo estático de Einstein Defende um Universo em expansão e estima a “constante de Hubble”, dois anos antes do próprio 1931: apresenta a “Teoria do Átomo Primordial” e publica-a num artigo na “Nature” É o verdadeiro “pai” da teoria conhecida como “Big Bang” (expressão de Fred Hoyle - 1949) Um dos primeiros cientistas a trabalhar computadores (1958, com o Burroughs E 101) Lemaître distinguia o conceito teológico de Criação do conceito científico de “início dos tempos” Defensor da autonomia entre Ciência e Teologia (sem admitir contradição entre ambas) 32
Cientistas e cristãos Stanley L. Jaki (1924 -2009) Padre beneditino húngaro, teólogo, filósofo, físico, professor de Física Doutorado em Teologia (Instituto Pontifício de Sto. Anselmo, Roma, 1950) Doutorado em Física (Universidade de Fordham, EUA , 1957) Estudou com o Prémio Nobel da Física, Victor Hess Leccionou as Gifford Lectures, em Edimburgo, de 1974 a 1976 Prémio Templeton em 1987 Primeiro a tirar as consequências dos Teoremas da Incompletude de Gödel para a “teoria de tudo” Autor de uma explicação meteorológica para o milagre do Sol, em Fátima 33
Cientistas e cristãos Donald Knuth (1938–) Norte-americano, matemático e cientista de computadores 1963: Doutoramento em Matemática (Caltech) Nesse ano, torna-se professor assitente no Caltech e inicia a obra “The Art of Computer Programming” 1968: é editado o primeiro volume (de sete) da obra “The Art of Computer Programming” Nesse ano, torna-se professor na Universidade de Stanford 1992: abandona o cargo de professor para se dedicar à sua obra-prima A parte A do volume 4 já foi editada; o volume 5 está estimado para 2020 Knuth é luterano, e nos tempos livres dedica-se à actividade de organista 34
Cientistas e cristãos Francis Collins (1950–) Médico-geneticista norte-americano Doutorado em Química, na Universidade de Yale (1974) Doutorado em Medicina, na Universidade da Carolina do Norte (1977) De 1993 -2008, Director do National Center for Human Genome Research Liderou o Consórcio Internacional de Sequenciamento do Genoma Humano (concluído em 2003) No decorrer da sua carreira médica, passou de ateu a cristão evangélico A 14 de Outubro de 2009, o Papa Bento XVI fê-lo membro da Pontifícia Academia das Ciências 35
Cientistas e cristãos Laurent Lafforgue (1966 -) Matemático francês, natural de Antony 2000: Director de Investigação no CNRS 2002: Recebe a Medalha Fields em Pequim 2003: Membro da Academia das Ciências de Paris Católico devoto, tem-se dedicado à causa da Educação Pública em França «Tenho que afirmar publicamente o meu reconhecimento, a minha fidelidade e o meu amor filial à Igreja Católica, que nunca me fez senão o bem e que me deu em abundância o tesouro mais precioso, que jamais encontrei noutro lugar» 36
Cientistas e cristãos Ao longo dos tempos inúmeros cristãos contribuíram para a evolução da Ciência nas diversas áreas do saber científico. Resumo dos autores abordados(1) Séc. XIII-XIV Jean Buridan Medicina, Anatomia, Genética Física , Química Áreas do saber científico Matemática História da Ciência Séc. XIV Nicole Oresme Séc. XIX-XX Georges Lemaître Séc. XIX-XX Pierre Duhem Séc. XVII Niels Stensen Séc. XIX Gregor Mendel Séc. XX-XXI Francis Collins Séc. XIV Séc. XVIII Nicole Oresme Maria Gaetana Agnesi Séc. XX- XXI Laurent Lafforgue Séc. XIX-XX Pierre Duhem Séc. XX Stanley L. Jaki (1) Contribuições mais significativas 37
Índice 1. Introdução 2. Obscurantista, a Igreja? 3. A dita guerra entre Igreja e Ciência 4. Cientistas e cristãos 5. Conclusão 38
Conclusão Albert Einstein (1879 -1955) Nunca encontrei uma expressão melhor do que “religiosa” para esta confiança na natureza racional da realidade e da sua peculiar acessibilidade à mente humana. Quando esta confiança falta, a ciência degenera num procedimento sem inspiração. O Diabo que se preocupe se os padres capitalizam isso. Não há remédio para isso [não há outra opção]. I have never found a better expression than “religious” for this trust in the rational nature of reality and of its peculiar accessibility to the human mind. Where this trust is lacking science degenerates into an uninspired procedure. Let the devil care if the priests make capital out of this. There is no remedy for that. Albert Einstein, Lettres a Maurice Solovine reproduits en facsimile et traduits en français (Paris : Gauthier-Vilars, 1956), pp. 102 -103. 39
Conclusão Albert Einstein (1879 -1955) É certo que uma convicção, semelhante a um sentimento religioso, acerca da racionalidade ou inteligibilidade do mundo se encontra por detrás de todos os trabalhos científicos de alto nível … Esta crença profunda, uma crença unida a um sentimento profundo, numa mente superior que se revela no mundo da experiência, representa a minha concepção de Deus. Certain it is that a conviction, akin to religious feeling, of the rationality or intelligibility of the world lies behind all scientific work of a higher order… This firm belief, a belief bound up with deep feeling, in a superior mind that reveals itself in the world of experience, represents my conception of God. Albert Einstein, Ideas and Opinions, trad. Sonja Bargmann (New York: Dell, 1973), p. 255. 40
Conclusão Albert Einstein (1879 -1955) Todos os que estão seriamente empenhados na busca da ciência ficam convencidos que as leis da natureza manifestam a existência de um espírito muito superior ao dos homens, um [espírito] diante do qual nós com as nossas modestas capacidades nos devemos sentir humildes. Every one who is seriously engaged in the pursuit of science becomes convinced that the laws of nature manifest the existence of a spirit vastly superior to that of men, and one in the face of which we with our modest powers must feel humble. Albert Einstein. In: Max Jammer, Einstein and Religion (Princeton NJ: Princeton University Press, 1999), p. 93. 41
Conclusão O Cristão afirma: • O Universo só pode ser O Ateu afirma: • O Universo só pode ser compreendido pelos nossos intelectos racionais se não tiver intelectos racionais se tiver sido criado por um Intelecto racional. (pressuposto de inteligibilidade). • Res naturalis inter duos intellectus constituta est” – São Tomás, De veritate (I, 2). Paradoxo! O Ateu afirma que o fundamento último da realidade é a matéria/energia O Cristão afirma que o fundamento último da realidade é o Deus “logos” (razão) O cristianismo “salva” a racionalidade 42
Conclusão O que deve ser evitado… • Para o diálogo entre Fé Respeito pelas verdades da Fé cristã e Ciência: • Respeito pelas verdades da Ciência • Falta de rigor científico, filosófico e teológico • Falta de confiança no trabalho dos cientistas • Falta de confiança no Magistério doutrinal da Igreja • A ideia impossível da “dupla verdade” Nenhuma verdade da Fé cristã contradiz uma verdade de Ciência (e vice-versa). 43
Conclusão «A fé e a razão constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. » Papa João Paulo II (encíclica Fides et Ratio, 1998) 44
Bibliografia Títulos em Português Thomas E. Woods, O que a Civilização Ocidental deve à Igreja Católica Francis S. Collins, A linguagem de Deus Alister Mc. Grath, O Deus de Dawkins Antony Flew, Deus existe (Lisboa: Alêtheia, 2009) (Lisboa: Presença, 2007) (Lisboa: Alêtheia, 2008) (Lisboa: Alêtheia, 2010)
Bibliografia Títulos em Inglês - Filosofia Edward Feser, The Last Superstition – A refutation of the new atheism Edward Feser, Aquinas – A begginner’s guide David S. Oderberg, Real Essentialsm (St. Augustine’s Press, 2010) (Oneworld, 2009) (Routledge, 2008) Alvin Plantinga Where the conflict really lies – Science, religion and naturalism (Oxford University Press, 2011)
Bibliografia Títulos em Inglês – História da Ciência James Hannam, God’s Philosophers James Hannam, The Genesis of Science Stanley L. Jaki Bible and Science Stanley L. Jaki The Relevance of Physics (Icon Books, 2010) (Regnery, 2011) (Christendom Press, 2004) (Scottish Academic Press, 1992)
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